domingo, 27 de outubro de 2013

A CIDADE DOS FILÓSOFOS
       Nas trevas do meio-dia, que haviam chegado depois do sol da meia-noite, sentados em pé num banco da praça do centro da Cidade dos Filósofos, conversavam dois cidadãos, isto é, dois pensadores (que seguravam livros que não eram Bíblias).  Um deles deixou cair uma moeda.  Disse o outro:
       — A gravidade é implacável.  Faz tudo cair.
       — Cair?  No Universo não há teto nem chão, e a Terra está no Universo.
       — Acho (disse Maria) que ela, a gravidade, centraliza tudo.
       Acanhado, eu me aproximei.  Eu precisava de informação: queria passear pela cidade como turista.  Escutei o mais alto deles dizer:
       — Não acha que há coisas mais importantes do que passear?  Por que não tenta usar o senso crítico?
       — E quem disse que eu não uso? (retruquei).
       — Parece que você usa.  Mas precisa abrir mais a mente.
       — Preciso de informação; da minha mente cuido eu.
       — Você é um tolo (disse meu interlocutor).  Não sabe de nada; é um apedeuta.
       Fui ignorado por todos.
       — Você tem razão (disse eu, que tinha percebido a necessidade de mudar de estratégia).  Preciso abrir a mente e usar o senso crítico com base nos seus critérios.
       Vi um enorme sorriso.
       — Você é um rapaz inteligente! (disse).  Guiarei você.
       Assim que terminou de falar, apareceram duas galinhas, que tinham o tamanho de avestruzes.  Montamos.  E começamos a voar rumo ao oeste.  A altura que mantínhamos era de cem metros.
       — Está vendo aquelas casas decadentes?  (perguntou).  Estão no bairro dos marxistas e dos defensores das teses de Foucault.  Estamos vendo o subúrbio.
       As pessoas lá embaixo carregavam livros (que não eram Bíblias).
       Uma fumaça invadiu nossas narinas.  Começamos a rir com uma alegria que não era nossa.  Cada uma das galinhas se transformou num elefante cor-de-rosa.  Quando nos distanciamos, meu guia e eu voltamos à normalidade, e os elefantes também.
       Sobrevoamos o bairro dos filósofos da arte, que expunham a região glútea em direção ao céu enquanto liam Kant.  Afastados, viramos a cabeça e vimos jatos marrons cruzarem o espaço aéreo que acabáramos de deixar para trás.  Olhei para baixo.  Os tais filósofos da arte defecavam apontando para o céu.
       — Por que fazem aquilo? (perguntei).
       — Porque pensam que no céu fica o mundo das ideias.  A intenção deles é adubar aquele mundo.
       Naquele momento, decidi levantar outro assunto.
       — Ninguém aqui lê jornal? (indaguei).
     — Jornal?  Não!  Cada um de nós faz o próprio jornalismo.  A verdade é sempre subjetiva: depende do ponto de vista de quem a vê.  Você pode não ter reparado, mas todo cidadão carrega um bloquinho de notas.
       — Haja tempo livre! (exclamei).
       — E há (afirmou).  O cidadão não faz trabalhos pesados.
       — E quem faz?
       — Os bichos que andam e falam: os pobres, que são escravos.
       — Mas eles não leem Marx e Foucault?
       — Por tantas horas quantas um pobre permaneceria numa igreja (esclareceu ele).  E há sempre um universitário ou um professor nas sessões de leitura.
       Passamos por cima do bairro dos positivistas, onde moravam os burgueses.  As casas eram de três andares; as ruas eram de três mãos; os muros tinham três metros e revestimento de três camadas.
       — Os positivistas gostam de fazer tudo em três etapas (informou o guia).  E o bairro reflete isso.
       Não muito longe ficava o bairro de classe média, em que pousamos.  Assim que desci, um homem pediu que eu apanhasse a carteira que ele deixara cair no chão.  Feito o favor, repreendeu-me:
       — Mal-educado!
     — Fiz algo errado? (perguntei ao guia, que agora estava ao meu lado observando o dono da carteira afastar-se).
       — Fez.  Você fez um favor sem perguntar por quê.  Aqui fazer esse tipo de pergunta é seguir uma regra de etiqueta.
       Havia uma mistura de defensores de Nietzsche com os de Weber e com os de outros filósofos.  Todos discutiam; todos defendiam teses; todos tinham um amplo vocabulário.
       Dizia uma mulher ao meu lado:
       — Meu filho, que tem oito anos, será submetido a uma cirurgia.
       — E o que ele pensa disso? (perguntou a sua interlocutora).
       — Está animado!  Perguntou: “Mãe: Podem filmar para eu ver os meus órgãos internos?  Quero saber como sou por dentro.”  Não sentiu medo!
       — Que idiossincrasia interessante! (disse a outra mulher).
       A uns cinquenta metros de distância, discutiam dois velhos:
       — Estou lhe dizendo: Ninguém vai telefonar para mim.  Estou esperando uma ligação, mas não escuto som nenhum.
       Disse o outro velho:
       — Você está se concentrando no telefonema, mas não no aparelho.  Em vez de dizer: “Ninguém quer telefonar para mim”, pergunte: “Por que o som não sai?”.  Não se concentre na causa, o telefonema: concentre-se no efeito, os sons que o aparelho deveria emitir; assim, chegará à hipótese segundo a qual estão tentando telefonar para você, conforme o pedido que fez há alguns minutos por esse mesmo telefone, mas você não atende por achar que não estão tentando fazer o que pediu, o que se explica com a ausência de sons.
       Depois de dizer isso, o velho tirou do bolso o telefone celular e telefonou para o número do telefone público, que não emitiu som nenhum.  O outro, que esperava uma ligação de outra pessoa, tirou o fone do gancho e ouviu a voz do amigo dizer:
       — Está vendo?  O problema era o telefone, e não quem tenta telefonar para você!
       — Se você tinha um celular (disse o velho segurando o fone), por que me fez usar um orelhão?  Eu podia ter conversado com quem pode ajudar desde o início!
       — Foi uma experiência: eu já sabia que o orelhão tinha um defeito, o de não emitir sons, que é diferente do de não servir para fazer ligação.  Este último defeito, como sabemos, ele não tem, pois você já fez uma ligação e até conversou com uma pessoa, que disse que ligaria para outra, que deve ter tentado telefonar para esse orelhão, e que viria buscá-lo; só que você não atendeu...
       — Está satisfeito?
       — Não: você não pensou filosoficamente.  Se eu não estivesse aqui, você usaria outro telefone.
       — É lógico!
       — Bastava esperar alguns minutos para tirar o fone sem ouvir sons.  Você podia fazer isso esporadicamente; numa das tentativas, acabaria ouvindo a voz da pessoa com quem queria conversar.  Graças a mim você descobriu a verdade.
       — O mundo é cheio de mentiras sociais, como aquela que eu disse ao lhe desejar um bom dia.  Por que se preocupa com a busca da verdade?
       — Você não se preocupa?
       — Não muito.
       — Então você é louco!  Deve ir embora desta cidade.  Recuso-me a conviver com alguém anormal!
       — Só quero que me venham buscar para eu ir para casa!  Não posso tomar condução!  Não tenho dinheiro!
       — Tenho dinheiro, mas não sei se vou dar ou emprestar a alguém que não se importa com a busca pela verdade.
       — Importo-me...  Não com muita frequência, mas...
       — Então responda: Quem veio primeiro?  O ovo ou a galinha?
       — Devo interpretar essa pergunta literal ou metaforicamente?
       — Faça como quiser.
       — Acho que um círculo não tem início.  E penso que a causa age sobre o efeito, que também age sobre a causa.
       Toda a conversa era cansativa.  Notando minha expressão de desânimo, um habitante perguntou:
       — Que foi?
       — São cansativas essas conversas (respondi).
       Silêncio.  Todos olharam para mim.
       — Herege!  (gritou um dos circunstantes).
       Disse alguém ali:
       — Não devem ser usadas as palavras heresia e herege.  São proibidas.
       — Não são, não!  (disse um terceiro indivíduo).  Os filósofos desta cidade não proibiram nada.  Jamais fariam isso!  Essas palavras são apenas altamente perigosas; por isso é desaconselhável fazer uso delas entre nós, que sempre saberemos que não proibimos nada, com exceção do ato de proibir.  Ora, só os idiotas são dogmáticos, e não somos idiotas: somos pessoas que usam o senso crítico!
       — Mas este visitante (disse meu guia) é um caso sério.  Temos de salvá-lo. 
       — Não quero ser salvo.
       Chamaram a prefeita, Maristela Chalá, a qual, conforme o registro dos meus olhos, saiu de uma torre de marfim, que não estava muito longe.  Chegou segundos depois, voando numa estrela vermelha, que servia de prancha voadora.  Disse ela que detesta a classe média, a mesma que a chamara e que a escutava levando pontapés nas nádegas deliberadamente expostas.  Parecia que as pessoas que a convocaram tinham tanto prazer em levar golpes dela quanto ela tinha em aplicá-los.  Depois de ser informada do meu caso, a mulher pôs uma máscara em mim e disse que eu tinha tendências fascistas.
       — A que classe pertence? (perguntou ela).
       — Sou pobre (respondi).  Detesto admitir, mas sou.
       — Não gosta da classe operária?
       — Eu não gosto nem desgosto.  Não sou chegado à luta de classes.
       Horrorizada, disse:
       — Você é uma abominação política!
       — A senhora é neurótica.
       — E você é uma aberração ética!
       — Quero ir embora daqui (disse eu).  Já deve estar na hora da telenovela; não posso ficar...
       — Telenovela?
       Todos ficaram em silêncio.
       — Isso mesmo (confirmei).  Algum problema?
       — Você é uma aberração cognitiva!
       Fui imediatamente expulso da cidade.  Do lado de fora do portão, tirei a máscara e vi-o desaparecer, ou melhor: deixei de vê-lo: Como num passe de mágica, os muros da cidade haviam começado a dar lugar aos contornos de uma enorme caverna.  O portão não tinha razão de ser: no seu lugar havia o vazio, que era, a partir daquele momento, a entrada da caverna.
       Refletindo, cheguei à conclusão de que a Cidade dos Filósofos era a cidade dos pedantes e dos antipáticos.  Era um desperdício de espaço.  Pensei que seria horrível que o resto do mundo fosse igual a ela.  Contudo, como instrumento de segregação, ainda podia ser útil para a humanidade.  Afinal, que lugar poderia ser melhor para intelectuais e para os jovenzinhos de classe média que fumam maconha nas universidades?

                                                                                   
                                                       (Duque de Caxias, 27 de outubro de 2013 (data de publicação); 12 de novembro de 2014 (data da última alteração).)

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